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quarta-feira, 20 de julho de 2011

Endereço novo

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quinta-feira, 27 de agosto de 2009

C'est fini

Amigos:

A campanha para uma vida menos mequetrefe encerra aqui.
Agradeço a audiência, carinhos e agressividades. No fim, para mim, tudo confirma meu caminho.
Para quem apoiou meus pensamentos, obrigada.
Para quem agrediu, procure um terapeuta... Agressividade e anonimato me soam problemas interessantes para um terapeuta...

Volto em breve.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

vamos sair da mesmice?


A inexorável passagem do tempo

Já estava confortável na cadeira, em frente ao espelho, toalha no pescoço, capa protetora, quando a navalha atravessou meus tímpanos:

__ O que é isso no seu cabelo?

Foi com essa pergunta que meu cabeleireiro começou o meu corte, ou melhor, do meu cabelo. Na verdade, trocando em miúdos, foi um corte com retaliação.

Eu respondi:__ é meu verdadeiro cabelo!

A pergunta foi por conta dos meus pululantes cabelos brancos, que insistem em nascer desde meus 18, 19 anos e, apoiada por mãe e algumas amigas da época, comecei a esconder desde então. Hoje, com 30 anos e algum processo interno resolvido, torna-se essencial não fugir mais de mim, e parar de esconder minha natureza. Tanto porque, esconder a natureza de cabelos castanhos escuros e grisalhos torna-se um dissabor repetido a cada 15 dias.

Acho curioso o fato de que tudo que é natural parecer repugnante. O sêmem, o suor, a saliva, a menstruação, os cabelos brancos. As pessoas têm muita dificuldade de aceitar a própria natureza. Ou do outro.

Celso, o citado cabeleireiro, tem aproximados 45 anos. É bonito, simpático, e apresenta elegantes fios brancos que exibe com orgulho. Mas os meus cabelos brancos lhe servem para me retaliar, porque sou mulher e “devo manter a imagem da perfeição juvenil”.

Já uma colega do trabalho confessou que arranca todos os fios brancos que lhe surgem. Eu lhe disse que em breve ficará careca, pois é inevitável a passagem do tempo. Mais uma vez observo a cara de repulsa de um interlocutor, e ouço que cabelos brancos devem ser escondidos, pintados, camuflados. A principal razão é que não podemos ficar com cara de tia.

Mas eu sou tia. Tia do Matheus.

To be or not to be?

Em uma conversa com meu namorado, fã da natureza, xiita na luta contra tudo que venha de processos industriais, ganhei um parceiro em minha empreitada grisalha. Além de considerar autêntico eu buscar me assumir integralmente em meio a nossa sociedade fake, ele considera que meu cabelo ficará original, bonito e com a biografia da minha vida inscrita em meus cabelos. O moço pensa o mesmo sobre as rugas.

Gosto de tudo isso, aprecio a questão da autenticidade, de assumir minha natureza, mas confesso que tenho medo de perder a sensualidade por conta dos cabelos grisalhos, de “parecer velha” (mas o natural é envelhecer), de lutar contra todos esses costumes inseridos em nossa sociedade e no fim, voltar ao tubo de tinta. Há um movimento de algumas mulheres ao redor do mundo na luta contra a escravidão do retoque. Se eu não me perder em minhas divagações, vou engrossar o caldo.

Anos atrás, numa viagem para a Argentina, uma das mulheres que mais me intrigou nessa vida foi justamente uma portenha de cabelos grisalhos. Seu conjunto elegante, seu rosto delineado pelos anos, e seus cabelos num fantástico corte Chanel composto por suntuosas matizes brancas. Ela era assustadoramente poderosa, talvez por me parecer implacável pela aceitação de sua natureza.

Minha questão mais íntima no momento é com meus cabelos. Já fiz trocas com diversas mulheres que conheço. Minha dermatologista, bonita de tudo, cinqüenta e tantos anos, assume suas rugas, amenizadas, mas nunca ocultadas, mas diz que nunca assumiria a branquitude das madeixas. Minhas instrutoras de yoga, que na placidez de uma vida zen não têm nem rastro de fios brancos na cabeça, também já demonstraram assustar-se com a idéia de ser balzaca de cabelos brancos.

Vez ou outra meus diálogos pessoais se contradizem. Naqueles dias que acontecem de acordar estupidamente bonita sem razão aparente, encho o peito e repito que vou adorar extravasar minha natureza e tornar-me o que em meus conceitos seria essa intrigante mulher, essa desejada fêmea colossalmente bem resolvida. Daí vem o sabotador interno, anulador de experiências no exato período que as antecedem, e me avisa que aquele tubo da loreal continua dentro do armário.

Estou resistente. A inexorável ação do tempo em minha vida não vem separada de todos os risos, viagens, amores, amigos, perdas, vitórias, entendimentos e tudo o mais que compõe essa viagem terrena. As rugas e os cabelos brancos são a escrita que meu viver incute em meu mais profundo exterior. Assumir essa condição humana e vivenciar com plenitude e aceitação a passagem do tempo me dá uma estranha sensação de poder. Um sabor de lutar contra a imposição de uma sociedade que já faliu.

Mas ainda estou no processo de aceitação e convencimento. Acredito que o encontro com minha natureza me possibilitará um passo a mais ao encontro da pessoa que desejo ser, mais e mais aquela que na verdade sou, mas que as máscaras, imposições e preconceitos sociais e industriais coagem para que mantenha apagada.

A inexorável passagem do tempo poderá sim, me fazer brilhar. A começar pelos pequenos raios de luz que insistem em sair do alto da minha cabeça...

Gisele Naconaski

quinta-feira, 23 de julho de 2009

A gente não está com a bunda exposta na janela pra passar a mão nela...

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Os mapas da alma não têm fronteiras

Os mapas da alma não têm fronteiras

Eu não conheço felicidade maior que a alegria de reconhecer-me nos demais. Talvez essa seja, para mim, a única imortalidade digna de fé. Reconhecer-me nos demais, reconhecer-me em minha pátria e em meu tempo, e também me reconhecer em mulheres e homens que são meus compatriotas, nascidos em outras terras, e reconhecer-me em mulheres e homens que são meus contemporâneos, vividos em outros tempos. As palavras são de Eduardo Galeano ao ser condecorado com a Ordem de Maio, da República Argentina.

Palavras proferidas em Montevidéu, dia 9 de julho, quando Galeano foi condecorado com a Ordem de Maio, da República Argentina.

Permitam-me agradecer esta premiação que estou recebendo, que para mim é um símbolo da terceira margem do rio. Nesta terceira margem, nascida do encontro das outras duas, florescem e se multiplicam, juntas, nossas melhores energias, que nos salvam do rancor, da mesquinhez, da inveja e de outros venenos que abundam no mercado.

Aqui estamos, pois, na terceira margem do rio, argentinos e uruguaios, uruguaios e argentinos, rendendo homenagem a nossa vida compartilhada, e, portanto, estamos celebrando o sentido comunitário da vida, que é a expressão mais íntima do sentido comum.

Ao fim e ao cabo, e perdão por ir tão longe, para um ponto onde a história ainda não se chamava assim, lá no remoto tempo das cavernas, como se viraram para sobreviver aqueles indefesos, inúteis, desamparados avôs da humanidade? Talvez tenham sobrevivido, contra toda evidência, porque foram capazes de compartilhar a comida e souberam defender-se juntos. E se passaram os anos, milhares e milhares de anos, e vemos que o mundo raramente recorda essa lição de sentido comum, a mais elementar de todas e a que mais nos faz falta hoje.

Eu tive a sorte de viver em Buenos Aires, nos anos 70. Cheguei corrido pela ditadura militar uruguaia e acabei saindo corrido pela ditadura militar Argentina. Não saí: me saíram. Mas nestes anos comprovei, uma vez mais, que aquela lição pré histórica de sentido comum não havia sido esquecida de todo. A energia solidária crescia e cresce ao vai e vem das ondas que nos levam e nos trazem, argentinos que vêm e vão, uruguaios que vamos e viemos. E no tempo das ditaduras, soubemos compartilhar a comida e soubemos defender-nos juntos, e ninguém se sentia herói nem mártir por dar abrigo aos perseguidos que cruzavam o rio, indo para lá ou vindo de lá.

A solidariedade era, e segue sendo, um assunto de sentido comum e, portanto, era, e segue sendo, a coisa mais natural do mundo. Talvez por isso sua energia, sempre viva, foi mais viva do que nunca nos anos do terror, alimentada pelas proibições que queriam mata-la. Como o bom touro de lida, a solidariedade cresce no castigo.

E quero dar um testemunho pessoal de meu exílio na Argentina.

Quero render homenagem a uma aventura chamada Crise, uma revista cultural que alguns escritores e artistas fundaram com o generoso apoio de Federico Vogelius, onde eu pude aportar algo do muito que me havia ensinado Carlos Quijano, em meus tempos do semanário Marcha.

A revista Crise tinha um nome um tanto deprimente, mas era uma jubilosa celebração da cultura vivida como comunhão coletiva, uma festa do vínculo humano encarnado na palavra compartilhada. Queríamos compartilhar a palavra, como se fosse pão.

Nós, sobreviventes daquela experiência criadora, que morreu afogada pela ditadura militar, seguimos acreditando no que acreditávamos então.

Acreditávamos, acreditamos, que para não ser mudo é preciso começar por não ser surdo, e que o ponto de partida de uma cultura solidária está na boca daqueles que fazem cultura sem saber que a fazem, anônimos conquistadores dos sóis que as noites escondem, e eles, e elas, são também aqueles que fazem história sem saber que a fazem. Porque a cultura, quando é verdadeira, cresce desde o pé, como alguma vez cantou Alfredo Zitarrosa, e desde o pé cresce a história. A única coisa que se faz desde cima são os poços.

A ditadura militar acabou com a revista e exterminou muitas outras expressões de fecundidade social. Os fabricantes de poços castigaram o imperdoável pecado do vínculo, a solidariedade cometida em suas múltiplas formas possíveis, e a máquina da separação continuou trabalhando a serviço de uma tradição colonial, imposta pelos impérios que nos dividiram para reinar e que nos obrigam a aceitar a solidão como destino.

À primeira vista, o mundo parece uma multidão de solidões amontoadas, todos contra todos, salve-se quem puder; mas o sentido comum, o sentido comunitário, é um bichinho duro de matar. A esperança ainda tem quem a espere, alentada pelas vozes que ressoam desde nossa origem comum e nossos assombrosos espaços de encontro.

Eu não conheço felicidade maior que a alegria de reconhecer-me nos demais. Talvez essa seja, para mim, a única imortalidade digna de fé. Reconhecer-me nos demais, reconhecer-me em minha pátria e em meu tempo, e também me reconhecer em mulheres e homens que são meus compatriotas, nascidos em outras terras, e reconhecer-me em mulheres e homens que são meus contemporâneos, vividos em outros tempos.

Os mapas da alma não têm fronteiras.

Tradução: Katarina Peixoto

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Toca Raul!